Um amontoado de relíquias ilustram a história da capital

Local guarda a história de Brasília em fotos, vídeos e mapas, mas não é o espaço ideal para tanta memória

Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

É patrimônio histórico da humanidade, as pessoas parecem não dar o devido valor e aparenta estar mal conservado. O acervo histórico da capital é, em todos os aspectos, bastante semelhante a Brasília. Acondicionado em instalações provisórias há 25 anos, o Arquivo Público do DF precisa sofrer mudanças significativas, especialmente de localidade, para preservar aquilo que guarda em seu prédio.

“O espaço físico já está obsoleto, aquém da capacidade de armazenamento. Precisamos de espaço para abrir uma planta ou trabalhar em uma foto”, admite o coordenador do arquivo histórico, Wilson Vieira Jr. Ele gere toda a documentação acondicionada nos cerca de mil m² e supervisiona os gerentes de cada sessão.

“É um acervo volumoso. Se colocarmos todas as caixas que temos, uma atrás da outra, teríamos um quilômetro de extensão”, explica Wilson. “A situação é emergencial. Se não mudarmos deste espaço atual, teremos poucas possibilidades de continuar conservando o acervo”, reivindica o pesquisador do Arquivo Público.

Inadequado

Atarracado dentro do terreno onde está a sede da Nova Companhia da Capital (Novacap), na Epia, próximo ao Park Shopping, o lugar é considerado inadequado até por quem trabalha lá. O espaço foi criado em 1985 e mudou de local apenas uma vez antes de chegar à atual localização. O prédio não consegue mais comportar adequadamente os documentos que deveria resguardar, onde está a história de Brasília.

“Os arquivos estão bem acondicionados, mas o prédio que não é o ideal”, apazigua o superintendente do Arquivo Público, Gustavo Chauvet. Segundo ele, a expectativa é que o órgão tenha uma nova sede até maio deste ano, quando deve se mudar para perto do Palácio do Buriti, em uma espaço cinco vezes maior que o atual.

Mudança

“Temos 20 mil caixas com quase seis milhões de documentos. Alguns mapas precisam ficar enrolados, pois não podem ser guardados abertos e isso não é o ideal”, admite o superintendente.

Entre outros problemas do local, também foi citada a variação de temperatura a que os arquivos estão sujeitos e a luminosidade. “Quando está calor, esquenta muito. Quando está frio, fica muito gelado. Isso não é nada bom para os documentos”, revela o superintendente Gustavo Chauvet.

Processo para democratizar o acesso

Vinculado à Casa Civil do DF, o Arquivo Público dispõe de orçamento aproximado de R$ 3 milhões desde 2011. O valor, no entanto, serve quase todo para arcar com as despesas de pessoal, o que atravanca processos de modernização e implementação de novas soluções de organização para o local.

Desde novembro do ano passado, porém, o acervo começou a ser digitalizado para estar disponível pela internet. Em parceria com a  Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe), os documentos estão, pouco a pouco, saindo exclusivamente do papel desgastado para integrar bancos de dados virtuais.

“Se uma pessoa que estuda na Paraíba quisesse pesquisar uma coisa aqui, teria de viajar  para cá. Digitalizando, você democratiza o acesso”, elogia o estudante de História da Universidade de Brasília (UnB).

Falta de vontade em melhorar

Para o estudante de História Renato Ventocilla, “tendo acesso ao passado e à produção científica, você tem maior visibilidade sobre o que já aconteceu e maior possibilidade de saber como agir hoje”, explica. Para ele, no entanto, o estado de conservação do material é um dos grandes aspectos negativos atuais. “Quando fui fazer pesquisa, tinha arquivo na escada porque não tinham onde ficar. Tem bastante poeira também, e eu sei que é chato dizer isso, mas é muito fácil para alguém ir lá e simplesmente roubar um documento”, reclama. Ele diz ver progresso na modernização de todo o acervo, mas classifica o atual sistema de pesquisa e catalogação como “arcaico” e pondera sobre as responsabilidades tanto do governo quanto dos cidadãos.

“O governo tem várias alternativas de política e precisa colocar prioridades. Se não houver demanda, se as pessoas não procurarem o Arquivo, o governo não vai ter o estímulo para investir”, acredita.

Memória íntima

O professor universitário e cineasta Marcelo Faria, 43 anos, valoriza o acervo à disposição, assim como Renato, mas credita maior responsabilidade pela situação atual à política. “Incomoda-me saber que as pessoas que trabalham lá acreditam no trabalho, mas parece que o Poder Público não dá as condições ideais”, lamenta.

Para ele, haver demanda ou não pelas informações ali contidas não deveria ser o essencial para garantir investimentos. “A importância do arquivo não está na quantidade de pessoas que acessam os dados, mas na qualidade do que lá está”, acredita. “A conservação da memória está atrelada à cultura. E em país de terceiro mundo, ela está sempre em segundo plano. Com certeza isso faz com que esse acervo não seja levado tão a sério”, argumenta.

Como profissional de cinema, Marcelo Faria costuma usar o serviço digital do Arquivo Público para conseguir fotos antigas e geralmente se encanta mesmo com o que não está diretamente relacionado às suas tarefas. “O interessante lá é que tem muita raridade. Vi a primeira imagem de Brasília, e nem fazia parte da minha pesquisa, mas pedi para copiarem para mim. A gente olha aquilo e nem acredita no caos que vivemos hoje em dia”, relembra-se.

Casa de ferreiro…

Reunir os arquivos também é desafiador para o órgão. De acordo com Chauvet, pouquíssimos órgãos do GDF entendem a importância de repassar ao Arquivo Público do DF os documentos com potencial histórico ou relevantes.

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Fonte: Da redação do Jornal de Brasília
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