A operação tartaruga no DF – Por Murilo de Oliveira

Murilo foi oficial do BOPE/DF e hoje está como Agente de Policia Federal.

Carta aberta à Senhora sociedade brasiliense:

Embora não seja parte no processo de forma direta (membro de alguma associação representativa ou mesmo policial militar) resolvi fazer aqui um desabafo na qualidade de interessado indireto, como cidadão brasileiro, na decisão judicial que ora determina o fim da quase pejorativa Operação Tartaruga. Cidadão esse que, no exato momento, assiste impotente e perplexo mais um pai de família e colega de profissão policial vítima de latrocínio com um tiro no olho na cidade de Goiânia-GO. NÃO SOU POLICIAL MILITAR e tentarei, na medida do possível, ser sucinto, pois que, nos tempos atuais, seja mesmo ciente de que o texto deva sim se adaptar ao leitor. Caso contrário correrá o risco de sequer ser lido!

Pois bem. Determina, de forma direta, a decisão do TJDFT, em caráter liminar, o término imediato da Operação Tartaruga. Um esclarecimento urge: o que é Operação Tartaruga? Greve, abandono de serviço, descumprimento de escalas dos policiais militares? Vos digo: Não! Nada disso. Ainda fosse. Seria mais fácil. Estariam no âmbito da ilegalidade e a reversão seria relativamente simples, bastando para isso se utilizar da força normativa-jurídica que é assegurada a todos os detentores da função jurisdicional. É muito mais grave do que isso.  A Operação Tartaruga não é a doença em si, ela é um sintoma. Ela não é a causa, mas a consequência. Trata-se do reflexo de enorme desmotivação que assola todas as polícias no Brasil. Sim, desmotivação quando se descobre, com o passar dos anos, que a profissão que escolheu  por vocação é desrespeitada socialmente. Tratada com descaso. Como subemprego até mesmo pelo seu próprio empregador. Assim o que ela oferecerá será mesmo sempre subserviços, quer seja ela oficializada com a proclamação oficial de “Operações Tartarugas” ou não. Talvez o que deva ser repensado seja o respeito dispensado à classe policial na Republiqueta Brasil. E já adianto desde já a todos os leitores: NÃO EXISTE DECISÃO JUDICIAL NO MUNDO QUE TENHA FORÇA COGENTE PARA DETERMINAR QUE UM POLICIAL SE MOTIVE! E o trabalho policial, o trabalho policial mesmo, na sua atividade fim, que talvez poucos conheçam, exercido parte das vezes nos momentos em que a sociedade quase em sua totalidade esteja gozando de seu justo sono, é essencialmente motivacional. Por óbvio o aumento assustador da criminalidade não é responsabilidade tão somente da polícia. Crime é um fenômeno social. Complexo e mutável! Mas quando sua principal ferramenta de controle tem sido relegada a segundo plano durante anos por parte de um Poder Público omisso e corrupto e avalizado por uma sociedade alienada e complacente, mantendo suas mesmas estruturas e regulamentos do início do século passado, não se pode esperar nada além disso que todos assistem impassíveis: caos social!

A todos os que, desconhecedores do problema, se resumem a proferir covardes e simplistas frases como “se acha que ganha pouco procure outro emprego” ou  “já sabia o que iria ganhar quando resolveu ser policial” uma verdade é imperiosa: resumir problemas graves é sempre a chave das portas da injustiça! Embora como afirmado acima não seja policial militar vou confessar “um segredo” a vocês. Eu já fui um deles. Com orgulho inclusive! Me esmerava buscando a excelência e eficiência no meu trabalho. Não me esforçarei em convencer os que não trabalharam comigo e não precisarei relembrar os que trabalharam. Mas sabe quando decidi sair? Quando descobri que, para pintar o quartel que eu trabalhava ou mesmo conter infiltrações eu teria que vender folgas para policiais arcarem com gastos do seu bolso ou mesmo fazer acordos “implícitos” pedindo doação ao comércio para latas de tinta. Ou ainda fazer bingos entre os policiais e familiares com prêmios doados pelo comércio para arrecadar recursos e comprar pneus novos voltando as viaturas para onde elas devem estar sempre: nas ruas.  Outras coisas aberrantes pelas quais os policiais militares oram lutam pra mudar poderiam ser citadas, mas me furtarei em escrever nesse momento. Mas a verdade é que esse jogo cansa, manter esse sistema cansa! O ideal é esvaecido quando se observa que você é responsável por manter o sistema! De mais a mais, a sociedade tá cansada de ouvir mentiras. MENTIRAS QUE AFRONTAM MINHA INTELIGÊNCIA! A sua inteligência!  Mentiras como as que a tragédia presidiária maranhense tem como causa o “Estado tá mais rico!” Que as forças federais estão à disposição dos Estados. Chega de fazer da segurança pública uma plataforma eleitoral senhores governantes.  São mais de 50 mil pessoas morrendo anualmente (esse ano ultrapassará!) vítima da violência direta. O Brasil precisa ser passado a limpo senhores (as) leitores, ou o Estado Democrático de Direito se concretizará na maior mentira constitucional da história da República em muito breve.

Todos os meus sentimentos à senhora Ana Cleide, mãe do jovem Leonardo mais uma vítima da violência na cidade de Águas Claras-DF. Que não seja em vão!  Que a tragédia seja os  vinte centavos da segurança pública impedindo outras tantas mães de sofrer o que ora sofre. Esse verdadeira tragédia social que vivemos. Mas não me parece estar o Poder Público empenhado em resolver de fato toda essa pandemia. Rogo a Deus para, ainda em vida, assistir  a mesma coragem do Poder Judiciário ao determinar o fim da “Operação Tartaruga”  proferindo decisões determinando o Poder Executivo em nada mais fazer do que efetivar o texto constitucional na implementação das políticas públicas que lhe são afetas.

Então segui o conselho dos incautos: fui pra outra instituição. Mas será mesmo esse o caminho? Socialmente útil? Todos os que estiverem insatisfeitos devem procurar outra profissão? Ou será que devemos nos empenhar em garantir o direito de lutar aos principais atores desse teatro  para que a instituição que os mesmos pertença melhore e forneça melhores serviços públicos, mesmo que não lhes sejam garantidos direitos constitucionalmente assegurados a todos os trabalhadores responsáveis por serviços públicos? Não responderei. Deixarei tal mister para você leitor deixando, por derradeiro um conselho final à senhora sociedade. Já passou da hora de escolher qual polícia  se quer. Se uma polícia eficiente ou complacente com esse Estado em suas responsabilidades constitucionais. Seja qual for sua escolha lute por ela! A defesa da PEC  51 talvez seja um bom começo, a NÃO ELEIÇÃO DE TODOS OS ATUAIS GOVERNANTES um bom meio  e a concretização de um Estado Social um excelente fim! A escolha é sua!

Murilo de Oliveira, cidadão brasileiro  (felizmente não preciso de me utilizar de anonimato para exercer um direito constitucionalmente assegurado da livre manifestação de pensamentos, diferentemente dos nobres homens policiais militares que encontraram na “Operação Tartaruga” uma forma de serem ouvidos sem serem presos disciplinarmente na manutenção de privilégios! Estão nada mais fazendo do que gritando: O ATUAL MODELO DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL ESTÁ ABSOLUTAMENTE FALIDO!

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3 Comentários

Arquivado em Reflexão

3 Respostas para “A operação tartaruga no DF – Por Murilo de Oliveira

  1. SÁBIAS PALAVRAS COMPANHEIRO, O PROBLEMA É QUE PARTE DA SOCIEDADE CIVIL BRASILEIRA AINDA É MANIPULADA PELA IMPRENSA COMPRADA,QUE É A MAIORIA.

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  2. Son goku

    INFELIZMENTE SE O PODER JUDICIÁRIO NÃO FOR PROVOCADO POR ALGUM CIDADÃO, CONSCIENTE, ISSO NUNCA MUDARÁ.PORQUE PELO QUE VEMOS O NOSSO PODER JUDICIÁRIO ESTÁ DORMINDO.

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  3. Son goku

    …E ESSE SONO VEM DE LONGE, SENÃO O DF NÃO ESTARIA TOMADO DE INVASÃO

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