Perfil dos policiais militares dos últimos dois cursos de formação de soldados (CFP I e II)

Um artigo publicado na Revista de Ciências Sociais da PUC/Rio analisou o perfil dos policiais militares dos últimos dois cursos de formação de soldados (CFP I e II) que ingressaram na corporação sob a exigência do nível superior. Em entrevista concedida ao Centro de Comunicação Social (CCS), os pesquisadores, capitães Silva Mattos, Layla Santos, e o professor Arthur Costa (UnB), falam do perfil desse novo policial, das relações de hierarquia entre o mais “novo” e o “antigo” e das mudanças institucionais possíveis com essas novas relações. Esse estudo traçou parte do perfil do novo policial: quem é ele? como se relacionam com os mais antigos e o que a instituição ganha com isso? Confira na íntegra:

Novos policiais e mudanças institucionais

 J Roberto/CCS – A maioria dos policiais do último concurso, que foi exigido nível superior, já tem experiência profissional, é negra, com menos de 30 anos, solteira, sem filhos, mora com os pais e participa do sustento da família. Isso é positivo ou negativo para os interesses da instituição?

 Capitão Silva Mattos – Cerca de 70,5% dos novos policiais estão concentrados na faixa etária de 25 a 30 anos. E isso está associado à exigência de nível superior para o ingresso na instituição. Em grande medida, esses dados indicam que a Polícia Militar representa para os novos policiais militares um contexto de socialização secundária, para o qual trazem consigo experiências de vivências anteriores, tanto em sentido profissional quanto nas atitudes.

Isso equivale a dizer que os profissionais selecionados são mais experientes, por terem sido submetidos a contextos de disciplina prévia, em especial, aqueles referentes ao campo do trabalho. Com efeito, outras variáveis devem ser levadas em consideração nessa análise, como o fato de a principal motivação para o ingresso ser a estabilidade financeira e não a vocação para o trabalho policial, como poderia se supor.

Assim, existem aspectos positivos que podem ser ressaltados na adesão à estabilidade da carreira policial, contudo, esse processo é dinâmico e, cabe lembrar, que a mesma pesquisa indicou que a maioria dos novos policiais demonstrou, ainda no curso de formação, a intenção de sair da Polícia Militar.

  J Roberto/CCS – Por muito tempo foi comum associarem a predominância dos negros na PMDF à baixa escolaridade exigida para o ingresso. De acordo com o trabalho de vocês, isso não passa de um mito, talvez baseado no preconceito. O que isso significa?

  Capitão Silva Mattos – Na verdade, os resultados encontrados são consistentes com a distribuição por cor da população do Distrito Federal e com o próprio perfil racial das praças das polícias militares brasileiras, construído em pesquisa do Ministério da Justiça de 2009. A estigmatização da carreira policial já foi associada a critérios de perfil racial, mas não parece ser o principal ponto que orienta o reconhecimento social dos policiais. Não mais.

Por outro lado, a escolaridade foi ressaltada como o fator central de identificação positiva dos novos policiais, contrastando com o mito do policial “jagunço”, que o associa a atividades de pouca complexidade intelectual. Essa parece ser uma importante discussão na formação identitária da PMDF, tendo em vista as cisões que podem ocorrer entre os novos e os antigos em suas relações cotidianas.

 J Roberto/CCS – Na opinião de vocês, qual foi a principal razão para a mudança do grau de escolaridade para ingresso na PMDF? Isso pode trazer de benefício para a instituição?

 Prof. Arthur Costa – Há pelo menos duas razões. Primeiro, há tempos existe um anseio de aumentar o nível de escolaridade dos policiais na expectativa que isso melhore o desempenho da polícia e a sua relação com a comunidade. Segundo, essa medida pode ser entendida como uma estratégia de luta salarial. A expectativa de alguns é equiparar o perfil dos policiais militares com o dos policiais civis para, em seguida, equiparar os salários.

 J Roberto/CCS – Antes mesmo do requisito do terceiro grau para entrar na PMDF, muitos candidatos com curso superior já ingressavam quando a exigência era o segundo grau. Isso significa que essas relações internas possivelmente já estavam em processo de mudança?

 Capitão Silva Mattos – Certamente, esse processo vem se desenvolvendo há algum tempo. Não se pode acreditar num movimento repentino. Em alguma medida, a própria aceitação em torno dessa exigência para ingresso é fruto de uma construção que a antecedeu e, além disso, tem a ver com a remuneração paga aos policiais militares no Distrito Federal.

 J Roberto/CCS – A exigência do último concurso foi o nível superior em qualquer disciplina reconhecida pelo Ministério da Educação. Houve predominância de alguma área do conhecimento? Essa predominância de certa forma influencia as relações internas e também a da relação Polícia-Comunidade?

 Capitão Silva Mattos  Cerca de 45% dos novos policiais possuíam ao menos formação em nível superior no campo das Ciências Sociais Aplicadas, o qual inclui o curso de Direito. A despeito de não haver um recorte específico (uma análise por curso), os dados parecem indicar a valorização do campo jurídico em detrimento do campo militar, repercutindo as lutas concorrenciais entre as próprias instituições de segurança pública. De toda forma, a pesquisa não permite avaliar em detalhe tais aspectos.

 Relações de Hierarquia

 J Roberto/CCS – Antiguidade, para o militar, é posto. Isso significa que muitos policiais antigos estão em posições de comando e supervisão desses novos policiais. Essa relação, podemos dizer, entre teoria e experiência, tem gerado tensão?

 Capitã Layla Santos – Os antigos sabem que a formação dos novatos foi mais técnica e eficaz, por outro lado os novatos sabem que a experiência é muito importante para a atividade policial, e essas habilidades complementares tem contribuído para certo equilíbrio nas relações de hierarquia.

Os novatos precisam dos antigos e reconhecem isso, percebem que a técnica precisa estar associada à prática, valorizam a experiência de quem tem mais tempo de serviço, até porque apesar de portarem um diploma de nível superior, muitos possuem uma graduação genérica que não os habilitaria formalmente a exercerem suas funções policiais: são biólogos, geógrafos, educadores físicos, nutricionistas…

Caso o conhecimento acerca da atividade policial na PMDF pudesse ser adquirido em manuais técnicos e normas de conduta claras, ou ainda por meio de um curso de formação que destinasse parte substancial da carga horária a atividades de estágio e/ou oficinas, os conflitos poderiam ser maiores, pois o valor atribuído à experiência dos antigos provavelmente seria menor.

 J Roberto/CCS – Depois do projeto policial do futuro, praticamente todos os policiais da PMDF tiveram a oportunidade de fazer um curso superior.Formar quem não era formado diminuiu o preconceito dos que tinham com os que não tinham curso superior e vice-versa?

 Capitã Layla Santos – Esse curso constitui uma válvula de escape para as pressões oriundas do ingresso de novos policiais com perfil socioeconômico e padrões de educação formal distintos da maioria dos sargentos. Durante as entrevistas, relatos de melhora na autoestima e maior autoconfiança eram comuns aos sargentos que fizeram o Tecsop, não só pelo diploma de graduação, mas por terem agregado teoria ao conhecimento empírico adquirido no decorrer de anos de serviço.

 J Roberto/CCS – Como um policial que é mestre, ou doutor, por exemplo, administra hoje o fato de ser comandado por alguém com menor nível de escolaridade, principalmente no serviço de rua?

 Capitã Layla Santos – É exatamente no serviço de rua que o policial militar percebe a importância de conciliar experiência e técnica. Ser doutor em direito pode facilitar a condução de uma ocorrência na delegacia, por exemplo, mas o tirocínio torna o policial mais efetivo principalmente ao executar patrulhamento preventivo. A atividade policial é muito dinâmica, exige habilidades subjetivas e não pode ser exercida meramente pela reprodução de comportamentos ensinados e treinados. A capacidade de adaptar a teoria às situações reais e cotidianas é desenvolvida no dia a dia do serviço.

TropaFonte: http://www.pm.df.gov.br/site/index.php/noticias/noticias-institucionais-2/1051-quem-somos-nos

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7 Comentários

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7 Respostas para “Perfil dos policiais militares dos últimos dois cursos de formação de soldados (CFP I e II)

  1. NOVINHUUU

    NA BOA?!
    ESTÃO ACHANDO QUE SOMOS MASSA DE MANOBRAS??
    POIS NEM DE LONGE ESSE ARTIGO BUSCOU TRAZER A NOSSA REALIDADE..
    PRA MIM, FOI MAIS DO QUE DIRECIONADO PARA UM RESULTADO TOTALMENTE FORA DE NOSSA REALIDADE!!!
    OU SEJA, ESTÃO É DE SACANAGEM COM A NOSSA CARA.. SÓ PODE..

    NOVINHUUU

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  2. Tony

    A última pergunta a Capitã respondeu nada com nada!!!

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  3. Marcelo C. de Albuquerque

    O nível superior foi importantíssimo para o efetivo policial, uma vez que proporciona angariar mais conhecimento para a polícia. Contudo, aliado deveria vir a motivação salarial para o cargo. Senão vejamos: TODOS os novatos estão estudando para sair da PMDF; como é que vou confiar a minha vida nas ruas trabalhando com um policial que que por fora está fardado e por dentro é um paisano total com a mente muito longe do serviço de rua?

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    • NOVINHUUU

      FIU, A TEORIA É TOTALMENTE DIFERENTE DA PRÁTICA!!
      OU SEJA, MUITOS QUE ENTRARAM REALMENTE GOSTARIAM DE FAZER CARREIRA AQUI NESSA POLÍCIA..
      PORÉM, LHE FAÇO O QUESTIONAMENTO?!
      QUE CARREIRA?!
      VOCÊ ACHA JUSTO DÁ O SANGUE.. ESPERAR LONGOS ANOS (MÉDIA DE 11) PRA TER A PRIMEIRA PROMOÇÃO NA FIRMA?!
      VOCÊ ACHA JUSTO?!
      OUTRA COISA, FORA ISSO.. EXISTE INÚMEROS PROBLEMAS INTERNOS, QUE SÓ FAZEM FRUSTRAR OS NOVOS POLICIAIS!!
      OU VOCÊ ACHA QUE NÍVEL SUPERIOR NÃO PROPORCIONA UM MAIOR QUESTIONAMENTO NÃO SÓ NAS ABORDAGENS COMO PRINCIPALMENTE NA ÓTICA DE VER AS COSIAS..
      RESUMINDO, MASSA DE MANOBRA SÓ E QUEM QUER..
      E NÓS QUEREMOS TER SIM RECONHECIMENTO FUNCIONAL.. RECONHECIMENTO SALARIAL.. RECONHECIMENTO DA SOCIEDADE!!
      NO ENTANTO, PRIMEIRO SOMOS JULGADOS PELA PRÓPRIA INSTITUIÇÃO… DEPOIS, PELA SOCIEDADE.. E AINDA TEM OS CUSTOS COM ADVOGADOS E ETC..
      DAÍ LHE FAÇO O QUESTIONAMENTO??
      SERÁ QUE VALE A PENA POR O AMOR DO QUE FAZ A CIMA DE TUDO??
      SENDO QUE VOCÊ PODE SAIR DO CEU E IR DIREITO PRO INFERNO EM QUESTÃO DE SEGUNDOS?!
      OU SEJA, ISSO QUERENDO OU NÃO.. VERÁ EM QUALQUER INSTITUIÇÃO.. SEJA ELA PÚBLICA OU PRIVADA, EM QUE AQUELES QUE NÃO GOSTAM DO SISTEMA.. E MESMO TENTANDO MUDA-LO NÃO CONSEGUE.. ESPERA O QUE??
      LHE RESPONDO: TRAMPOLIM!! OU O FAMOSO PROSTITUTA.. QUEM PAGAR MAIS, QUEM DÁ MELHORES CONDIÇÕES E ETC.. VAMOS!! E QUEM PERDE?! TODOS!! POIS TEMOS INÚMEROS PROFISSIONAIS CAPACITADOS QUE CANSARAM DE IR CONTRA O SISTEMA E PRINCIPALMENTE SOFRE COM ELE!!

      NOVINHUUU

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  4. Leandro Almeida

    Algum de voces sabem quantos soldados por CFP formaram?

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  5. Renato

    Alguém sabe porque cancelaram o concurso da PM RJ de 2014?
    Brincadeira…Olhem esse fórum…
    http://www.gabarite.com.br/forum-concurso/1378-pmerj-policia-militar-do-rj-2014-inscricao,-gabarito-e-resultado

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