Arquivo do mês: julho 2012

Pai, polícia – Por Talita Virgínia

Durante anos, tive medo do meu pai. Usava minha mãe como intermediária para falar com ele, para pedir alguma coisa. O curioso é que meu pai é um sujeito tranquilo, gosta de bicho, de natureza e é muito religioso. O trabalho dele é que é violento. Por isso, o associei à farda, à arma. Eu tinha medo do meu pai fardado.

Talvez o jeito de ser dele e o seu temperamento expliquem por que depois de trinta anos de serviço na Polícia Militar, tenha se aposentado como um simples soldado. Meu pai não pôde estudar quando era moço. Como não se saía bem nos testes, e nunca teve uma rede de conhecidos dentro da polícia, não conseguiu promoções. Chegou a fazer parte da Rota, a tropa de choque, que dava prestígio e não dinheiro. Mas ficou pouco, não se adaptou. A Rota é violenta, e quem já está nela faz de tudo para que os aspirantes desistam. O filme Tropa de Elite retrata bem isso.

Violência me assusta, mas a morte não me impressiona. Ver gente morta não é nada de extraordinário nos bairros onde moramos, e o fato de meu pai ser da polícia teve pouco a ver com isso. O Parque Pirajussara, perto de Embu, onde minha família mora atualmente, é um lugar perigoso. Uma vez, assassinaram um homem bem na nossa porta. Estávamos em casa e escutamos tudo, os berros, a correria, os tiros. Um policial deve prestar socorro sempre, mesmo quando não está em serviço. E meu pai tentou acudir o baleado, chamou a ambulância, mas não deu tempo. O tiro pegou bem no meio do peito e o homem morreu ali na nossa calçada.

Violência com o meu pai só vi uma vez. Eu devia ter uns 6 anos. Entrei no banheiro, ele estava lá, segurando a barriga, e vi o sangue escorrendo por entre os dedos. Minha mãe me mandou ficar no quarto, quietinha, com o meu irmão Felipe, que tinha 2 anos. Meu pai estava à paisana quando tomou esse tiro. Como a ambulância demorava muito a chegar, ele foi para o pronto-socorro dirigindo, com a minha mãe. Nesse dia eu tive medo.

Já estive envolvida em tiroteio, mas, novamente, o fator determinante foi a geografia, e não a profissão do meu pai. Ele estava saindo de casa comigo no colo quando um homem, perseguido por outros três armados, aproveitou a porta aberta e correu para dentro da nossa casa. Os perseguidores vieram atrás atirando. E meu pai, que nunca anda desarmado, trocou tiros com eles para nos defender. Nessa época, morávamos no Jardim Macedônia, perto do Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, outro bairro bastante violento.

Já fomos obrigados a mudar de casa, de madrugada, para escapar de ameaças. Houve uma briga em um bar perto de casa e meu pai teve de se envolver, e acabou acertando um bandido. Como todos do bairro sabiam onde nós morávamos, os bandidos prometeram matar a nossa família em represália. Durante o resto desse ano meu irmão e eu não voltamos para a escola.

Só depois de adulta, quando o PCC parou São Paulo, percebi o risco real que meu pai correu. Ele sempre quis ser policial, sempre trabalhou na rua, sempre soube dos riscos. E não se arrepende. Desde que se aposentou, todos os anos faz os 168 quilômetros até Aparecida do Norte a pé para pagar uma promessa. Ele pediu para conseguir se aposentar com todos da família vivos.

 

Extras:

Clique aqui para assistir ao curta metragem Pai, Polícia de Talita Virgínia

Fonte: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-49/portfolio/pai-policia

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A polícia indefesa…

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, “Contra um mundo melhor” (Ed. LeYa).

A polícia indefesa
LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP – 13/02/12

Qual o “produto” da polícia? Liberdade dentro da lei, segurança, enfim, a civilização

A POLÍCIA é uma das classes que sofrem maior injustiça por parte da sociedade. Lançamos sobre ela a suspeita de ser um parente próximo dos bandidos. Isso é tão errado quanto julgar negros inferiores pela cor ou gays doentes pela sua orientação sexual.
Não, não estou negando todo tipo de mazela que afeta a polícia nem fazendo apologia da repressão como pensará o caro inteligentinho de plantão. Aliás, proponho que hoje ele vá brincar no parque, leve preferivelmente um livro do fanático Foucault para a caixa de areia.
Partilho do mal-estar típico quando na presença de policiais devido ao monopólio legítimo da violência que eles possuem. Um sentimento de opressão marca nossa relação com a polícia. Mas aqui devemos ir além do senso comum.
Acompanhamos a agonia da Bahia e sua greve da Polícia Militar, que corre o risco de se alastrar por outros Estados. Sem dúvida, o governador da Bahia tem razão ao dizer que a liderança do movimento se excedeu. A polícia não pode agir dessa forma (fazer reféns, fechar o centro administrativo).
A lei diz que a PM é serviço público militar e, por isso, não pode fazer greve. O que está corretíssimo. Mas não vejo ninguém da “inteligência” ou dos setores organizados da sociedade civil se perguntar por que se reclama tanto dos maus salários dos professores (o que também é verdade) e não se reclama da mesma forma veemente dos maus salários da polícia. É como se tacitamente considerássemos a polícia menos “cidadã” do que nós outros.
Quando tem algum problema como esse da greve na Bahia, fala-se “mas o problema é que a polícia ganha mal”, mas não vejo nenhum movimento de “repúdio” ao descaso com o qual se trata a classe policial entre nós. Sempre tem alguém para defender drogados, bandidos e invasores da terra alheia, mas não aparece ninguém (nem os artistas da Bahia tampouco) para defender a polícia dos maus-tratos que recebe da sociedade.
A polícia é uma função tão nobre quanto médico e professor. Policial tem mulher, marido, filho, adoece como você e eu.
Não há sociedade civilizada sem a polícia. Ela guarda o sono, mantém a liberdade, assegura a Justiça dentro da lei, sustenta a democracia. Ignorante é todo aquele que pensa que a polícia seja inimiga da democracia.
Na realidade, ela pode ser mais amiga da democracia do que muita gente que diz amar a democracia, mas adora uma quebradeira e uma violência demagógica.
Sei bem que os inteligentinhos que não foram brincar no parque (são uns desobedientes) vão dizer que estou fazendo uma imagem idealizada da polícia.
Não estou. Estou apenas dando uma explicação da função social da polícia na manutenção da democracia e da civilização.
Pena que as ciências humanas não se ocupem da polícia como objeto do “bem”. Pelo contrário, reafirmam a ignorância e o preconceito que temos contra os policiais relacionando-a apenas com “aparelhos repressivos” e não com “aparelhos constitutivos” do convívio civilizado socialmente sustentável.
Há sim corrupção, mas a corrupção, além de ser um dado da natureza humana, é também fruto dos maus salários e do descaso social com relação à polícia, além da proximidade física e psicológica com o crime.
Se a polícia se corrompe (privatiza sua função de manutenção da ordem via “caixinhas”) e professores, não, não é porque professores são incorruptíveis, mas simplesmente porque o “produto” que a polícia entrega para a sociedade é mais concretamente e imediatamente urgente do que a educação.
Com isso não estou dizendo que a educação, minha área primeira de atuação, não seja urgente, mas a falta dela demora mais a ser sentida do que a da polícia, daí “paga-se caixinha para o policial”, do contrário roubam sua padaria, sua loja, sua casa, sua escola, seu filho, sua mulher, sua vida.
Qual o “produto” da polícia? De novo: liberdade dentro da lei, segurança, a possibilidade de você andar na rua, trabalhar, ir ao cinema, jantar fora, dormir, não ser morto, viver em democracia, enfim, a civilização.
Defendem-se drogado, bandido, criminoso. É hora de cuidarmos da nossa polícia.

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Nota do Deputado Federal Reguffe. Exemplo de parlamentar!

O Deputado Reguffe é uma das figuras públicas que eu mais admiro. Nunca esquecerei um discurso que eu fiz em nosso partido (PDT) sobre “valores e princípios” onde ele veio até a mim, batendo em meu meu ombro. olhando firmemente em meus olhos, e me disse: “É isso, valores e princípios, nunca se esqueça disso, independente de onde esteja!” Um dos poucos Deputados que responde suas ligações e emails. Um parlamentar fora do comum. Abaixo uma nota dele sobre alguns assuntos que o estão incomodando.

Desde que virei deputado distrital, vez por outra inventam coisas para tentar me atingir. Isso é mais uma prova que venho com coragem e correção cumprindo com a minha obrigação e com a minha responsabilidade com a sociedade, já que os interesses contrariados reagem.

Se não tivesse reação é que seria estranho. Já usaram blogs, sites, já imprimiram panfletos apócrifos, os bandidos tentam de tudo. Essa história, por exemplo, é maluca. Primeiro, porque atos secretos foram os que não foram publicados.

Todas as minhas nomeações, quando trabalhei no Congresso, foram publicadas no Diário. Segundo, sempre trabalhei de verdade, e muito. Tenho total consciência da minha responsabilidade. Além de folhas de ponto, tenho matérias de jornal da época que provam isso e me mostram trabalhando. Contra fatos, não há argumentos. Como deputado, agora, sou um dos poucos que tem 100% de presença no plenário, sem uma falta sequer.

Terceiro, porque ela nunca pensaria no meu nome para ministro, já que votei contra a DRU, contra a recriação da CPMF e assinei a CPI da corrupção. E todos sabem que votei na Marina para presidente. Portanto, essa história é absolutamente doida e mal intencionada. Pode estar por trás o fato de eu ter discursado e votado a favor da cassação da Jaqueline ou o fato de ter assinado aqui a CPI do 2º Tempo. Sinceramente, não sei. Só sei que eu venho honrando o meu compromisso com quem votou em mim e isso, pelo visto, desagrada algumas pessoas.

Posso ter mil defeitos, mas honesto eu sou.

E no meu mandato só o que fiz foi defender a população e o interesse público. Como sempre sonhei como cidadão. O chato é que isso desanima um pouco, mas tenho muito orgulho de tudo que tenho feito e de todas as brigas que comprei. Nenhuma para defender algo pessoalmente para mim, todas para defender a sociedade.

Um abraço forte,

Reguffe

Fonte: http://docafezinho.com.br/?p=15756

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O importante não é a velocidade, mas sim a direção. Precisamos ter foco!

Recentemente discorri sobre duas palestras que tive a oportunidade de comparecer. Alguns colegas afirmaram que tudo isso é bonito na teoria e que nossa instituição nunca chegará a excelência. Já que disse que acredito na mudança do micro para o macro, fiquei imaginando que eles estavam afirmando: “Eu nunca chegarei a excelência!” Precisamos avançar. Quebrar paradigmas. Salomão em Provérbios diz:

Quem zomba de tudo quer ser sábio e não consegue, mas quem tem juízo aprende com facilidade.

Afaste-se das pessoas sem juízo porque gente assim não tem nada para ensinar.

Quero me ater ao seguinte ponto:

1) DETERMINAR O OBJETIVO – DAR UM VALOR A ELE – DEFINIR A MISSÃO;

2) PLANEJAR A MISSÃO – ESTRATÉGIAS E TÁTICAS;

3) PREPARAR A EQUIPE – MOBILIZAR E CAPACITAR;

4) EXECUTAR O PLANO – DISCIPLINA E EXCELÊNCIA;

5) AVALIAR OS RESULTADOS.

Servem tanto para o MICRO quanto para o MACRO. Procuro aplicar tudo isso em minha vida nos últimos quatro anos e sei que é possível. Devemos focar em nosso crescimento pessoal criando agendas positivas. Exige dedicação e empenho. Sempre lembrando, que os Planos são nossos, mas sua realização não depende somente de nós. Posso dar como exemplo o planejamento que fiz para os próximos oito anos (fiz há 04 anos, totalizando 12 anos).

1) Tornar-me uma grande influência (liderança) dentro da Corporação. Ajudá-la a tornar-se uma grande Instituição;

2) Tornar-me uma grande referência em segurança pública, principalmente no que se refere a filosofia de polícia comunitária, no DF.

3) Tornar-me um grande orador, um grande comunicador;

4) Tornar-me um homem público respeitado e influente.

5) Organizar minhas finanças:

Líder é aquele que tem a habilidade de ver o “futuro”. Liderar é influenciar! É transformar o futuro em realidade!

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A liderança é importante para utilizá-la em tempos de caos!

É interessante observar os últimos acontecimentos em nossa Corporação e ver em que paradigma (visão de mundo) ainda estamos presos. Evoluímos muito nos últimos anos, mas recentemente temos regredido bastante. É perceptível um endurecimento e uma falta de diálogo, fato comum em “estados” autoritários.

Em minhas aulas de CHEFIA E LIDERANÇA explico aos meus alunos os conceitos de LÍDER FORMAL (Legitimado pelo Cargo) e LÍDER INFORMAL (Aquele que possui características que o legitimam junto aos liderados), discuto também sobre a Escola Tradicional da Administração, adotada pela Escola Superior de Guerra, forjada em temos de “chumbo”. Tal escola defende a ideia de que o COMANDANTE é um CONDUTOR DE TROPAS (Chefe Militar) e um CONDUTOR DE HOMENS (Líder Militar). O comandante é o “representante” legítimo da instituição, pois está legitimado pelo cargo. Não podendo de forma algum ser contrariado ou confrontado. Cabe a ele conduzir os “destinos” da “tropa”. Ele tem uma visão do todo, ou seja, uma visão periférica, enquanto a “tropa” enxerga apenas aquilo que está a sua frente. Ou aquilo que lhe é permitido ver…

O conceito acima torna-se bem mais interessante quando se discute também a escola positivista e a escola jusnaturalista, no campo do direito. Fico imaginando um comando que adote a visão da escola superior de guerra, aliada ao positivismo. Na escola “positivista” vale apenas o que está escrito. Um conceito interessante é o de justiça, adotado por esta escola: “Justiça é dar a cada um aquilo que lhe é merecido.” Compreendendo tais conceitos talvez facilite nossa compreensão sobre os últimos acontecimentos.

Compreender o conceito de liderança é importante para utilizá-lo em tempos de caos. A liderança em tempos de estabilidade é algo dispensável. Em época de tranquilidade, os bons administradores realizam os projetos dos problemas com segurança, porque as mudanças são lentas. Em momentos de turbulência, precisamos de pessoas de grande visão e capazes de criar sinergia entre as forças do grupo para que todos se unam em torno de um objetivo comum.

Os caos é um terreno maravilhoso para quem crescer. Do caos podem nascer as grandes conquistas. Na mitologia grega, Caos era o deus da nova ordem, era quem transformava a desordem num novo sistema, mais coerente…até o próximo ataque. Do encontro entre Caos e Afrodite, deusa do Amor e da Fertilidade, nasceu Eros, o deus do Amor.

Assim como na mitologia, esse movimento transformador gerado pelo Caos traz em seu âmago uma nova ordem que se impõe. Afrodite veio preencher o vazio do Caos e, junto com ele, formar uma nova ordem. Mais tarde, Eros se casa com Psiquê e gera uma filha, Volúpia, também chamada de Prazer, que representa a possibilidade de desfrutar de toda mudança que se engendrou. Todo momento caótico traz em si o nascimento da criatividade. Quando desfrutamos dessa nova ordem, construímos a possibilidade de amar e de ter muito sucesso em nossa carreira e empreendimento.

Talvez, neste exato momento, sua vida esteja um absoluto caos,  com tudo o que você planejou indo por água abaixo. Sem dúvida, não é o tipo de situação que se procura. Mas quero lhe dizer que,  com uma boa dose de paciência, outra boa dose de disponibilidade para mudar e uma grande capacidade de recomeçar, daqui a algum tempo sua vida vai estar muito melhor. E não se esqueça de uma dose de bom humor também. Como dizem os alemães: se você estiver passando por um grande problema, olhe bem para ele e dê uma boa gargalhada, porque, quando no futuro lembrar dele, vai sentir vontade de rir. Para que esperar tanto tempo para rir dessa situação? Aproveite e dê uma risada neste momento. Tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador…

Lembre-se: o caos é o melhor terreno para mudanças profundas. Os líderes sabem disso e se aproveitam desse tipo de situação para dar grandes saltos na vida!

Trechos do livro: Liderança para fazer acontecer – Faltam líderes no mercado. Você se candidata? – José Luiz Tejon. (Com adaptações).

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