Arquivo do mês: outubro 2010

A escola de monges e a formação policial…

A intenção inicial era escrever um texto sobre mobilização interna, mas alguns fatores fizeram-me retornar ao tema formação policial. Após dez anos tive a oportunidade de visitar uma Escola de Formação enquanto seus alunos estão em atividade. Tive a oportunidade de conversar com alguns antigos instrutores da minha época de curso e com atuais alunos.

Vejo que não evoluímos, pelo contrário, regredimos muito. Antes que alguém comece a me xingar gostaria de dizer que essa frase tem vários significados. As instalações são maravilhosas, se estivessem prontas. Aqui vejo muito barro, valas abertas por todos os lados, prontas para “pegar” um aluno desatento que vive correndo desesperado para cumprir alguma missão. Temos vários montes de britas por todos os lados, armários a serem montados, muitas coisas interessantes, principalmente a falta de recursos mínimos para o trabalho administrativo.

Falar com os alunos é ver ao mesmo tempo a alegria no rosto por estarem no curso e a tensão (medo) por estarem em um lugar como esse. Não tenho dúvida que é um choque para maioria. Estão se tornando ótimos militares. A maioria já está marchando que é uma beleza. Assisti a uma aula sobre “hasteamento” da Bandeira Nacional. Alguns no sol, outros perto da grama, com vários “mosquitinhos” incomodando logo cedo.

A pergunta na boca de todos os alunos é: “quando aprenderemos ser policiais?”

Vejo que não há conflito. Todos estão satisfeitos e felizes. Adoram correr uma hora por dia, pagar flexão logo pela manhã, cantar canções militares, almoçar por três horas, ouvir vários gritos e depois meditar o dia inteiro como monges em um mosteiro. Tive um amigo comentando que teve várias câimbras por ficar tanto tempo sentado. Creio que esse seja o sonho da maioria que ainda não entrou na Corporação.

Aqui também tem muito espaço. Não sei porque ainda não chamaram o restante dos aprovados. É só apertar mais um pouco. Temos cinco pavilhões. Somente dois funcionamento como salas de aula. Aonde cabem setecentos alunos cabem mil e trezentos ou até mais, basta a vontade de nosso “comandante supremo”. Vejo que nossa Escola é igual coração de mãe. Sempre cabem mais uns mil.

Esqueci do detalhe. Em quase um mês de curso tiveram umas quatro aulas. Se bem que acho que me enganaram, pois tudo que estão fazendo nessa escola tem um objetivo. Tudo aqui é uma aula. Correr, marchar, meditar…

É uma nova metodologia de ensino. Ela é inspirada em monges. O silêncio é muito importante para nossa formação, principalmente para se evitar o conflito. A ausência de conflito é sinônimo de dominação. Ele é muito perigoso, pois quando ocorre gera mudanças. Em nosso meio isso nem sempre agrada a maioria.

O silêncio tem sua importância no rito de passagem. O homem careca “despersonificado” começa a receber uma nova carga cultural. O silêncio deve durar apenas o período necessário para perceber o quanto se precisa aprender…

Particularmente sou a favor da disciplina consciente, mas ela somente é adquirida com o tempo, após a formação do caráter. Vi o esforço dos alunos e instrutores. São heróis…

Infelizmente chegamos a triste conclusão: “gostaríamos de fazer o melhor, até mesmo algo diferente nessa formação, mas infelizmente não sabemos como. Apenas reproduzimos o que nos foi ensinado no passado.”

 Precisamos mudar essa realidade por meio da mobilização interna e da organização….

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Mobilização social – Por que a polícia deve ser comunitária?

Corriqueiramente deparo-me com a pergunta:

Por que a polícia deve ser comunitária?

Se pesquisarmos os textos desse blog veremos que por mais de dois anos tento responder essa pergunta, mas até hoje não consegui respondê-la, e com certeza não conseguirei a curto prazo.

Há uma vasta literatura abordando o tema, ou fundamentos de uma prática que ficou conhecida como “policiamento comunitário”. Como a maioria já está cansada de saber, a polícia comunitária prega uma mudança de paradigma em relação aos modelos de policiamento vigentes ao longo do século XX, ou seja, busca aproximar as corporações policiais dos cidadãos a quem devem servir, cooperando uns com os outros, de forma organizada, para previnir crimes e diminuir as possibilidades de situações de violência. Em resumo, busca o diálogo entre as forças policiais e o cidadão.

Infelizmente ainda estamos longe desse ideal, devido a nossa fraca formação, falta de interesse e compreensão da dimensão do tema, além do desconhecimento da população sobre a importância de se debater “segurança pública”. Vivemos a dicotomia: de um lado, policiais despreparados e desinteressados, do outro, uma população apática e acomodada.

Por outro lado, tenho me perdido tentando desesperadamente convencê-los dos “benefícios” de uma aproximação com a comunidade, mas afinal, o que significa esse termo?

Não é fácil definir uma “comunidade”, pois no senso comum isso pode ter vários sentidos diferentes. Por ser um termo corrente não “perdemos tempo” pensando sobre seu significado. Pensando academicamente a situação continua sendo complicada, pois existem várias visões diferentes sobre o termo. É preciso verbalizar tal conceito para que ele seja compreendido. Acredito que aquilo que não é verbalizado não é humanizado. Sendo assim, entrarei em um novo nível nesse espaço.

Por dois anos estive preso na FILOSOFIA DE POLÍCIA COMUNITÁRIA, onde a dividi em: QUEBRA DE PRECONCEITOS POR MEIO DA APRESENTAÇÃO DE DIVERSOS CONCEITOS SOBRE O TEMA, OBJETIVANDO O SURGIMENTO DE UM NOVO CONHECIMENTO (novo conceito), ou seja, cada um construiu sua própria verdade (conhecimento) sobre o assunto.

Dessa busca chegamos a discussões interessantes sobre a polícia legal, polícia de conflito e polícia de confronto. Debates interessantes surgiram sobre as ações de polícia comunitária aplicadas no DF.

Com textos sobre minha própria experiência (bobos para alguns) procurei tocar o coração dos amigos, mostrando-os as dificuldades que em enfrentamos em nosso dia-a-dia, as alegrias, as dores, as lágrimas derramadas, mas acima de tudo a vontade de continuar e não desistir. Isso é importante para aprendermos a lidar dentro das comunidades. Quem toca o coração das pessoas toca a alma. Um “policial comunitário” deve aprender essa lição mais que qualquer outro. Devemos usar a razão para aflorarmos a emoção dos cidadãos. Isso não é fácil. Devemos nos colocar no lugar do outro para podermos respeitá-lo. No perfil de um “policial cidadão” não pode faltar o carisma, mas acima de tudo não pode faltar o respeito. Cada policial é um líder em potencial, cada cidadão um guardião de sua cidade, esse deve ser o espírito do “policiamento inteligente”. Lidar com “comunidades” nos grandes espaços urbanos e numa sociedade complexa significa lidar com várias contradições e enfrentar muitos dilemas. Para compreendê-las precisamos nos compreender.

Agora é preciso avançar. É necessário abordar sobre o MÉTODO, onde divido em: MOBILIZAÇÃO INTERNA E EXTERNA, PLANEJAMENTO E SOLUÇÃO DO PROBLEMA NAS COMUNIDADES. Em princípio me prenderei nos conceitos inseridos na MOBILIZAÇÃO SOCIAL e sua influência nas comunidades, mas se perceber a necessidade voltarei a filosofia e as histórias de meu “querido diário”. Para nossa reflexão deixo o pensamento abaixo:

“Conhecer e respeitar as dinâmicas diferentes é vital para a construção de valores democráticos e de cidadania que devem presidir não só o relacionamento entre o poder público e os cidadãos, mas, também, uma polícia mais voltada para uma interação mais próxima com o seu público.”

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Policial militar faz família refém no Riacho Fundo II desde a madrugada!

Ontem na igreja tive a oportunidade de ouvir uma pregação onde havia uma matemática interessante. O Bispo fez a seguinte a afirmação:

“A ausência é mais importante que a presença, pois ela nos faz valorizar aquilo que tínhamos.”

Achei muito inteligente essa afirmação, que veio acompanhada de uma equação:

Ausência + dor = carência

Ele afirmou que a carência é a nossa maior Mestra quando decidimos aprender com as experiências da vida.

Por que estou falando sobre isso?

Porque essa madrugada aconteceu algo no Riacho Fundo II com uma familia policial militar…

Para mudar a Instituição precisamos mudar os nossos hábitos, reeducar o homem…

Muitos companheiros só sentirão falta da PM e a dor de não ter um emprego após perderem esse presente do Criador que é ser policial militar no Distrito Federal!

É fácil jogar a culpa na Instituição quando não se percebe que ela é a junção de homens e mulheres. Nossos prédios não são a polícia militar. Ela somos nós, com nossas falhas, defeitos e qualidades. É o nosso reflexo.

A construção é diária…

Policial militar faz família refém no Riacho Fundo II desde a madrugada

Publicação: 25/10/2010 08:32 Atualização: 25/10/2010 09:41

Um policial militar faz a família refém desde o início da madrugada desta segunda-feira (25/10) em sua casa, no Riacho Fundo II. De acordo com a coronel Ilda, chefe da Comunicação Social da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) que acompanha o caso, o homem está afastado de suas funções por alcoolismo. Cerca de 50 policiais militares estão no local, segundo informações da PMDF.

De acordo com a corporação, o acusado mantém a mulher, as duas filhas e a sogra em cárcere privado desde às 2h. O motivo, segundo a PMDF, foi um desentendimento familiar, que começou em via pública quando o policial teria disparado contra o próprio irmão. Este último prestou queixa na 29ª Delegacia de Polícia (Riacho Fundo II).

Ainda segundo a coronel Ilda, o homem apresenta sinais de embriaguez. A mulher do autor não permite que a PM entre em sua casa. Até por volta das 8h30 desta segunda, a família ainda não havia sido liberada.

Fonte: Correio Braziliense

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As três fronteiras e a segurança nacional…

Chega um momento em que precisamos parar para respirar, olhar para o interior e refletir sobre nossos erros e projetos futuros. Foi o que fiz durante o “silêncio do blog”. Uma experiência maravilhosa, para quem precisa arrancar “baobás”, em menos de uma semana. São Paulo, Foz do Iguaçu, Argentina, Paraguai, Rio de Janeiro e Brasília. Senti-me em um filme de aventura enfrentando a “selva” e as águas “agitadas”  das cataratas.

O militarismo deixou uma grande herança chamada Itaipú. Uma obra fenomenal que impulsionou o Brasil e a região. Só vendo para acreditar em algo tão magnífico.

Deixando as “férias” e voltando ao trabalho…

Falar sobre segurança pública na região e meio confuso. Vejo mais como uma segurança nacional. O sistema é muito frágil, não é a toa que drogas e armas entram livremente pelas fronteiras. Vivemos no país do faz de conta.

Pouco efetivo, falta de equipamentos tecnológicos para varreduras eficientes. Entre Brasil e Paraguai a situação é ainda mais crítica. Esse país é um grande cultivador de maconha e o Brasil um grande consumidor. União perfeita…

Conversando com os paraguaios passei a valorizar ainda mais as conquistas da época de Getúlio Vargas. Enquanto aqui trabalhamos um ano e temos direito a férias de trinta dias, lá eles têm direito apenas a doze dias de férias, sem falar os baixos salários. Sua polícia é extremamente corrupta e ineficiente. Utilizam revólveres ultrapassados de cinco tiros. Lá conta-se uma “história” de que até quando o veículo está totalmente regular eles arrumam um jeito de “burlar” o sistema para cobrar propinas exigindo um “lençol” branco como equipamento obrigatório. Esse “lençol” seria para cobrir o corpo de uma possível vítima em caso de acidente. Por tanto, indo ao Paraguai, não se esqueça do lençol. (rsrs). Conversando com uma empresária local ela me disse que hoje a polícia civil (nacional) é ainda pior que a “militar”. Como sempre digo aqui: “Polícia única é golpe de Estado!” –  ainda mais quando se envolve “investigação”…

Foz do Iguaçú possui um efetivo de aproximadamente duzentos homens da Polícia Militar, uma Guarda Municipal, uma Polícia Civil, a Polícia Federal atuando na Fronteira e Aeroportos  e a “Força Nacional” (no dia dois homens e uma viatura fazendo abordagem “tática” em quem passava de moto…). No Brasil inteiro o efetivo da Força não passa de mil homens, sendo assim, lá deve ter no máximo 30 policiais atuando…ou seja…um país de faz de conta…

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O silêncio do Blog…

O silêncio é poderoso. Ele tem muito significado. Ao silenciar-me nesse espaço significa que estou me reconstruindo, aprendendo…Talvez esteja arrancando os “baobás” do meu “mundinho”. Quando existe “planta” ruim que nos incomoda é preciso que a arranquemos imediatamente, mas isso exige trabalho. Na sociedade está cheio de sementes terríveis. O solo da Segurança Pública está infestado de “oportunistas”. E quando não se descobre a tempo que aquela plantinha é “daninha”, nunca mais a gente consegue se livrar dela, pois suas raízes penetram em todo o sistema, atravancando-o. Se o sistema for frágil e as “ervas numerosas” ele acaba rachando.

A nossa Corporação deve passar por algumas mudanças nos próximos dias. É preciso analisar o cenário com cuidado. 

A construção de uma Instituição passa pela reconstrução de seus membros. Ao ausentar-me do debate virtual não significa que não esteja debatendo a nossa Corporação.

Ontem tive a oportunidade de aprender muito sobre nossos policiais. Tive o prazer de iniciar o dia tomando café com uma amiga da área de inteligência, almoçar com um comandante de unidade e fechar a tarde lanchando com um amigo, coordenador de campanha de um deputado federal eleito na última eleição.

Em todos os encontros debatemos segurança pública e as possíveis mudanças dentro do Sistema. O “IPI” será a maior delas. Eu creio!

Um projeto deve ter uma base sólida. Para isso, é preciso muita conversa…

Volto a afirmar:

“O POLICIAMENTO INTELIGENTE É MAIS QUE UM “NOME BONITINHO”!”

É A BUSCA DA EFICIÊNCIA E EFICÁCIA DA POLÍCIA, OU SEJA, FAZER O MELHOR, NO MENOR TEMPO, COM O MÍNIMO RECURSO POSSÍVEL!

Por mais quatro dias estarei ausente. Retornarei sexta-feira. Preciso descansar…

Uma boa semana a todos!

A construção é diária!

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