Universidade de Brasília – UNB
Instituto de Ciências Sociais
Departamento de Sociologia
Curso de pós-graduação em Segurança Pública e Cidadania
Módulo: Mídia, Criminalidade e Cidadania
Prof. Dra. Tânia Siqueira Montoro
Aluno: Aderivaldo Martins Cardoso
ANÁLISE DA NOTÍCIA
Jornal Na Hora H, quinta-feira, 21 de agosto de 2008 e Jornal Aqui DF, quinta-feira, 21 de agosto de 2008.
A violência é o centro das atenções da maioria dos noticiários brasileiros. Analisando um jornal do DF: NA HORA H! Percebe-se claramente essa afirmação. Os termos utilizados pelo jornal demonstram o sensacionalismo da reportagem. Na capa o título é: BOPE MATA SEQUESTRADOR.
É interessante observar que essa chamada possui um sentido dúbio.
BOPE MATA SEQUESTRADOR (letra em caixa alta)
O fugitivo da Papuda, Roger do Arte Pinto, manteve reféns sete pessoas após uma tentativa frustrada de assalto a uma farmácia, em Ceilândia. Ele foi morto por um atirador de elite da polícia. PÁGINAS 4, 5 E 6 (letra pequena difícil de ser lida)
Na capa, no alto da página no canto direito, nos deparamos com duas fotos, sendo uma do “bandido” empunhando a arma na cabeça da refém e outra dele morto sendo carregado pelos peritos do IML, abaixo delas uma frase com a afirmação: TIRO CERTEIRO.
Ainda na capa outra chamada policial chama a atenção para uma reportagem sobre a prisão de traficantes da classe média presos em uma operação de repressão ao tráfico.
No interior do jornal três páginas tentam reconstituir os momentos de “terror” vividos pelas vítimas. Várias fotos são utilizadas para “facilitar a compreensão” do leitor.
O título da matéria na página 04 é: ATIRADOR MATA HOMEM QUE SEQUESTROU SETE, ao lado um pequeno recorte com os dizeres: “Roger manteve reféns por mais de 5 horas em uma farmácia na Ceilândia”. Mais uma vez duas fotos chamam a atenção dos leitores, na primeira (grande) o assaltante com uma arma na mão segura um jovem e no canto esquerdo, outra foto (pequena) mostra o grupo tático do Bope observando a situação. Abaixo das fotos a frase: “A caixa Regina Chagas e o boy Alex Lopes Lisboa permaneciam inquietos sob a mira do seqüestrador. O Bope (detalhe) se preparava para agir”.
O texto nessa página tenta situar espacial e temporalmente o leitor, além de utilizar termos como “tensão” e “pânico” várias vezes para demonstrar o estado psicológico dos atores presentes no local. No segundo momento definem o “bandido” como “ousado”. Por diversas vezes afirmam que o jovem foi morto pela polícia. No primeiro parágrafo o termo utilizado foi: “Ele acabou sendo morto pela polícia”. No segundo, o termo aparece três vezes: “um tiro de fuzil pôs fim à agonia dos dois últimos reféns”, “um atirador de elite do Bope acertou um disparo certeiro na cabeça do Roger” e “O criminoso foi morto e os funcionários da farmácia saíram sem nenhum ferimento”. Os próximos parágrafos retomam a retrospectiva do assaltado até a retomada da negociação.
A narrativa continua na página 05 a partir da retomada da negociação. Mais uma vez a expressão tensão e utilizada. O título da reportagem é: Negociações foram marcadas pela tensão. Assim como na página anterior a narrativa e ilustrada por fotos, mais uma vez a foto do “bandido” com a arma em punho segurando a refém pelo pescoço e estampada de forma destacada no canto direito com a frase: “Ele pediu colete balístico, celular, a presença da avó e de um advogado, e um carro”. Abaixo no canto esquerdo outra vez a foto dele sendo carregado após sua morte.
A partir daí a narrativa começa a ouvir as autoridades de segurança pública para dar credibilidade ao que foi dito. O título confirma essa afirmação: “Foi um sucesso, disse coronel”. Após situar o leitor no espaço e tempo, mostrar como foi a negociação com o auxílio dos textos e fotos o jornal começa a mostrar como foi o desfecho após o tiro fatal. Como ficaram as vítimas? Quem era o bandido?
Novamente retomam ao passado dele:
O bandido era um velho conhecido da polícia candanga. Roger tinha passagens na cadeia por porte de drogas, roubo, porte de arma de arma de fogo e estava foragido da Papuda desde o dia 13 de agosto, quando foi liberado no “saidão” do Dia dos Pais. Ele morava em Águas Lindas, mas nos últimos dias estava na casa da mãe, no Setor P. Norte.
A página 06 traz duas reportagens: uma sobre as vítimas e outra sobre o inquérito instaurado pela Polícia Civil para “investigar todas as circunstâncias que cercaram a operação deflagrada pela PM para negociar a libertação das pessoas mantidas reféns pelo assaltante (…)”. Para demonstrar o “drama” o título escolhido foi “angústia e muito desespero”. Além das vítimas e de citar dezenas de vezes “a morte do seqüestrador” a reportagem aponta o outro lado da vida do “bandido” ao mostrar que ele também tinha família, a frase de impacto utilizada foi: “A angustia, porém, continuava do lado de fora com o choro desesperado da tia do rapaz, que não quis se identificar e falar com a imprensa”.
Sobre a vítima, falaram sobre o “sofrimento” e o atendimento hospitalar. Outro ponto importante é a repetição da frase “agora a única coisa que eu quero é descansar e ver meu filho”.
Na segunda parte, mais uma vez reportam as autoridades de segurança pública, desta vez ao delegado da polícia civil responsável pelo inquérito, que a afirmou: “Estamos investigando para descobrir se houve algum tipo de abuso ou uso de força excessiva da PM durante ação”, e ao comandante-geral da PMDF que disse: “Há muito tempo, temos homens que treinam especificamente para atuar nesse tipo de situação de crise. Toda a ação foi muito bem planejada”. Outro ponto levantado pelo comandante é que “a operação não foi considerada um sucesso em razão da morte do criminoso”. A reportagem é finalizada relembrando que o rapaz morreu, dessa vez, narrando a ação do atirador: “ O sniper, que deu apenas um tiro no assaltante acertando em cheio a sua cabeça, empunhava um Fuzil Automático Leve (FAL) de calibre 7.62 mm, adaptado para disparos de longa distância”.
Ao fazer a análise de como foi conduzida a narrativa dos fatos verifica-se um padrão, conforme citado no livro Violência, Gênero e Crime no Distrito Federal. O capítulo 3, Notícias de violência: uma leitura – Tânia Montoro – demonstra como as notícias de violência, semelhantes a esta, “são produzidas por meio de um discurso fragmentado, disperso, desvinculado do contexto social e das vozes dos envolvidos no acontecimento”, além disso, observa-se também como o discurso da reportagem “provém de um relato das versões do fato”.
Nesse sentido o jornal procurou demonstrar porque o “bandido” morreu, justificando que ele era audacioso e foragido da justiça. Mas mesmo utilizando-se desse argumento procura também deixar em dúvida a ação policial no imaginário da população ao afirmar diversas vezes que a polícia o matou, como se o Estado não tivesse legitimidade para tal ato quando alguém da sociedade foge as regras colocando a vida de terceiros em risco.
Poderíamos contrapor o jornal NA HORA H a outro da cidade do mesmo nível cujo nome é AQUI DF para se verificar outras formas de se abordar o mesmo tema.
O jornal AQUI DF utiliza outro tipo de manchete para chamar a atenção dos leitores, mas mantém o sensacionalismo. O título é:
UMA HISTÓRIA DE REFÉNS E SANGUE (letra em caixa alta)
Pânico no centro da cidade: jovem de 23 anos assalta farmácia, mantém uma vítima sob a mira de um revólver durante cinco horas e morre atingido por disparo de um atirador de elite do Bope – PÁGINAS 6 E 7 (letra pequena)
Diferentemente do NA HORA H o AQUI DF utilizou apenas 03 fotos, sendo duas na página 06 e uma na página 07. O texto foi destacado em um retângulo colorido onde destacaram a arma na cabeça da vítima, a correria durante o “desespero” da população após o tiro fatal. Como no outro, a narrativa segue um padrão. Primeiro situa-se o leitor no espaço e no tempo, explicam como iniciou o roubo, destacam a negociação, falam do desespero da população, destacam a arma na cabeça das vítimas e o desfecho fatal. Após tudo isso, o assaltante é definido como “problemático desde adolescente” e sua “ficha corrida” é relatada no canto da página dando legitimidade ao ato.
O Jornal AQUI DF chega a afirmar que: “Quando chegou a notícia de que a refém estava bem, a polícia foi aplaudida”. Essa situação anômala no DF serviu para confirmar o poder da mídia e a sua influência em nosso meio e até que ponto ela legitima nossas ações. Dessa vez muito do que foi dito pela mídia impressa foi acompanhado pela mídia televisiva, o que legitimou o ato da polícia, mas o que teria ocorrido se as câmeras não estivessem lá?
Com certeza crucificariam a polícia e seus integrantes!!