Falar em policiamento comunitário no Brasil não é tarefa fácil. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse tema já era discutido com seriedade em 1920. O nosso país ainda está se adaptando nesses vinte anos ao Estado Democrático de Direito, e infelizmente muitos ainda vêem na polícia um sinônimo de repressão e violência, fazendo com que perdure uma repulsa mútua entre ambos os lados.
Discutir os limites e possibilidades da adoção de programas de policiamento comunitário é um desafio. Uma das grandes dificuldades nesse processo é convencer o policial da importância do policiamento comunitário. Quando isso ocorre, a administração esbarra na falta de habilidade em selecionar os policiais que mais se identificam com esse tipo de atividade.
O militarismo arraigado colabora como fator de entrave, pois baseado na hierarquia e disciplina os mais antigos são os comandantes e em sua maioria estão presos ao modelo do passado e não dão abertura para que os mais novos dialoguem com a comunidade, muitas vezes criticando essa atitude.
O distanciamento da comunidade aumenta quando o policial trabalha simplesmente “motorizado”, pois muitas vezes passa doze horas patrulhando sem ao menos descer da viatura, cumprindo somente aquilo que lhe é mandado. Quando o policiamento é feito a pé esse distanciamento é reforçado porque o agente da autoridade não mora na localidade ou desconhece sua realidade, ou seja, não há uma continuidade do serviço, pois a cada dia o policial é escalado em um lugar diferente. Outra questão importante a ser analisada é o receio dos policiais de serem “controlados” por moradores. Isso pode ser explicado pela formação militar que faz policiais se sentirem “superiores” aos “paisanos” não admitindo nenhum tipo de controle ou cobrança por parte destes.
É preciso quebrar esses paradigmas buscando uma aproximação dos órgãos de segurança pública com os conselhos comunitários, ministrando cursos para os policiais e para a sociedade em geral sobre assuntos voltados para a segurança coletiva. É de suma importância explicar para população qual o verdadeiro papel da polícia dentro da sociedade e quais as suas funções, pois muitas vezes cobra-se das forças policiais aquilo que nem é de sua competência legal.
Portanto deve-se mostrar ao soldado, aquele que está na base, que ele também é agente transformador, que faz parte do processo, não de forma impositiva, mas por meio da conscientização. O mais importante nesse tipo de policiamento é a boa vontade do agente e a sua capacidade em gerenciar crises (desde uma simples ocorrência de som alto ou um delito de trânsito até uma ocorrência de seqüestro relâmpago ou outra mais grave). Um bom exemplo de policiamento comunitário no Brasil e no mundo é o PROERD (Programa educacional de resistência às drogas e a violência), no qual policiais trabalham em escolas próximas as suas residências de forma a interagir com a escola e a comunidade. É um programa que alia segurança e educação. Eis o que nosso país necessita!
ADERIVALDO MARTINS CARDOSO
Policial militar, instrutor de prevenção contra as drogas, Bacharel em Arquivologia (UNB), graduando em Direito (UCB) e aluno da pós-graduação em Segurança Pública e cidadania da Universidade de Brasília (UNB).
1 Comentário
Maio 3, 2008 às 3:29 pm
Essa é a minha visão sobre o policiamento comunitário e foi a minha redação para o concurso realizada para ingresso na Pós graduação em segurança pública na Universidade de Brasília (UNB)…